quarta-feira, 10 de março de 2021

A história de amor 'não tão romântica' entre Napoleão e Josefina

 


Irene Hernández Velasco 
O romance entre Napoleão e Josefina começou no outono de 1795
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Esse famoso matrimônio completou 225 anos.


Foi no dia 9 de março de 1796 que um jovem general de brigada do exército francês sem dinheiro e, aparentemente, sem muito futuro, casou-se com uma viúva cinco anos mais velha, com dois filhos de um casamento anterior e uma longa fila de amantes.

Ele era Napoleão Bonaparte. Ela, a viscondessa de Beauharnais, se chamava Rosa Josefina Tascher de la Pagérie — seu primeiro nome, Rosa, não era usado com frequência nas conversas entre o casal, pois havia sido pronunciado demais por muitos de seus amantes.

O casamento deles durou apenas 13 anos, mas ficou registrado como uma das maiores histórias de amor de todos os tempos.

Mas a realidade é que a união foi apaixonada por um breve período e logo se tornou tempestuosa e terrível.

Início do romance

Tudo começou no outono de 1795, quando Napoleão foi convidado para uma festa oferecida por Paul Barras, um dos membros mais efetivos do Diretório, forma de governo adotada durante a Revolução Francesa.

"Barras era bissexual, esperto, corrupto, libertino e notório", descreve o escritor Xavier Roca-Ferrer, que traduziu para o espanhol o livro As guerras privadas do clã Bonaparte (sem versão em português), obra que reúne as memórias de Madame de Reìmusat, companheira da Imperatriz Josefina que ganhou a amizade de Napoleão.

Ao fazer o convite para a festa, Barras queria colocar o talento indubitável de Napoleão a seu serviço.

"Naquela época, Barras tinha entre suas amantes (além de sua jovem secretária) a viscondessa de Beauharnais, que já tinha se relacionado com outros homens daquele meio, entre os quais se destaca o prestigioso general Hoche", revela Roca-Ferrer.

Retrato de Josefina em 1801 feito pelo artista François Pascal Simon Gerard

Retrato de Josefina em 1801 feito pelo artista François Pascal Simon Gerard
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Josefina tinha passado maus bocados durante o Terror, a fase sangrenta que marcou a Revolução Francesa entre os anos de 1793 e 1794.


Seu marido havia sido guilhotinado e ela estava prestes a perder a própria cabeça também. Mas a viscondessa conseguiu sair da prisão antes de ser executada.

Agora livre, ela logo se tornou "rainha" da sociedade parisiense em parceria com sua amiga íntima, a espanhola Teresa Cabarrús, mais conhecida como Madame Tallien.

"Elas começaram a criar tendências de moda nas roupas que usavam e tomaram atitudes que modificavam até questões sexuais", explica Roca-Ferrer.

Napoleão ficou completamente deslumbrado com Josefina assim que a viu.


"Barras, naquela época apaixonado por um menino que se afogaria no rio Sena meses depois, queria se livrar de sua amante para se concentrar em sua nova paixão. Assim, ele 'deu' a viscondessa de Beauharnais ao pequeno general, que a aceitou de bom grado porque ele já a amava ao ponto da obsessão", completa o escritor.

Resultado: apenas seis meses após o encontro, Napoleão e Josefina marcaram o casamento civil para o dia 9 de março de 1796.

Na certidão de casamento, os dois mentiram sobre sua idade: ela subtraiu quatro anos, enquanto ele acrescentou um.

Cartas de amor

Carta de Napoleão para Josefina, datada de 23 de maio de 1796

Carta de Napoleão para Josefina, datada de 23 de maio de 1796
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

"No início, Napoleão estava perdidamente apaixonado por Josefina, não há dúvida disso", diz o historiador e jornalista Ángeles Caso, encarregado de compilar e traduzir para o espanhol a enorme correspondência que o casal imperial trocou ao longo de 13 anos de relacionamento.

"As cartas que ele escreveu para ela tinham um importante conteúdo erótico, ele estava morrendo de paixão e desejo por ela. Mas, depois dos anos, aquele fervor e fascínio não só acabou, como Napoleão passou a tratar Josefina muito mal", acrescenta.

"Quanto a Josefina, acho que ela nunca correspondeu a Napoleão, pelo menos não da mesma forma. Ela nunca viveu aquela paixão absoluta que ele sentia", observa.

A verdade é que ambos eram muito diferentes.

Segundo os historiadores, Napoleão e Josefina eram muito diferentes

Segundo os historiadores, Napoleão e Josefina eram muito diferentes
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

O general era um homem culto, enquanto Josefina (nascida em uma família de colonos em Martinica, uma ilha caribenha que pertence à França) nunca foi vista com um livro nas mãos, segundo as memórias de Madame de Rémusat,.

"Desde a infância ela era caracterizada como uma 'estrangeira rica perfeita': preguiçosa, sensual, caprichosa e profundamente rebelde, algo que acabou deixando Bonaparte desesperado. De resto, o hábito de comer xarope de cana estragou seus dentes, característica que ela sempre tentava disfarçar colocando xales e leques na altura do rosto e dando um meio sorriso muito especial", enfatiza Roca-Ferrer.

Viagens e infidelidades

Poucos dias depois do casamento, Napoleão partiu para a Itália. Muito apaixonado, ele escrevia a Josefina diariamente, às vezes até duas vezes por dia, enchendo suas cartas com declarações de amor extasiadas.

Mas Josefina logo voltou à sua vida social agitada e continuou a ter amantes, embora nas cartas ao marido fingisse ter muitas saudades dele.

"Para justificar que não ia à Itália para fazer companhia como ele pediu, Josefina inventou uma gravidez e um aborto enquanto continuava a 'apanhar' garanhões famintos nas festas de Barras", explica Roca-Ferrer.

"Para controlá-la, Bonaparte mandou um de seus oficiais (Murat, seu futuro cunhado) a Paris com a ordem de zelar pelo bem-estar de sua esposa. Por fim, atendendo às exigências de Barras, Josefina foi à Itália para impedir que o general deixasse o exército e voltasse à França. Mesmo assim, ela foi acompanhada por um de seus favoritos, um jovem oficial chamado Hippolyte Charles."

Depois que o trabalho na Itália acabou, os dois voltaram para Paris.

Mas assim que uma nova campanha no Egito começou e Napoleão precisou marchar novamente, desta vez para a terra dos faraós, ela voltou aos seus velhos hábitos, voltando-se para seu amado Charles.

Desta vez, a separação durou 13 meses.



Napoleão Bonaparte na Itália, no registro do dia 5 de abril de 1796

Napoleão Bonaparte na Itália, no registro do dia 5 de abril de 1796
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

"Um dia, em julho de 1798, enquanto se dirigiam ao Cairo sob um sol escaldante, seu amigo e agora brigadeiro Junot revelou a Bonaparte as infidelidades públicas de sua amada e lhe falou sobre Charles", conta Roca-Ferrer.

De acordo com Bourrienne, o secretário particular de Napoleão, o general empalideceu como um moribundo com a notícia: "Suas feições se convulsionaram, uma expressão selvagem apareceu em seus olhos e ele começou a bater na cabeça com os punhos", descreve.

Cheio de fúria, ele investiu contra Bourrienne e Junot por não o terem informado antes.

A notícia das infidelidades de Josefina destruiu de uma vez por todas a paixão que Bonaparte sentia por ela.

"Josefina também não era apenas infiel, mas também desleal. Pelas costas de Napoleão, sem que ele soubesse, ela começou a se associar a negócios duvidosos. Entre esses empreendimentos estava a venda de sapatos em muito mau estado para o exército ou o fornecimento de comida de péssima qualidade aos combatentes. Isso significava um risco à vida dos soldados e do próprio marido, mas rendia muito dinheiro", analisa Caso.

Casamento por conveniência

Quando Josefina descobriu que o marido sabia tudo sobre as suas infidelidades e estava prestes a retornar a Paris, entrou em pânico.

Ela foi ao porto encontrá-lo na companhia de Hortensia, filha do casamento anterior que tinha uma ótima relação com Napoleão.

Mas o general desembarcou em outro lugar e se trancou em seu escritório antes de falar com a família.

Curiosamente, a partir desse momento, Josefina começou a amar profundamente Napoleão.

Mas era tarde demais: Hortensia atirou-se aos pés do padrasto pedindo perdão pela mãe.

Para espanto de todos os que o conheciam, Napoleão abandonou a ideia do divórcio e não puniu ninguém, mas disse a Josefina que a traição havia matado seu coração e ele nunca mais seria capaz de amar.

"À medida que Napoleão se afastava, Josefina ficou louca de ciúme. Não por amor, mas porque viu sua posição social abalada", diz Caso.

Eles continuaram a se comportar como marido e mulher para terceiros, mas a partir de então Napoleão deixou de ser um marido fiel.

A situação mudou completamente: ela se tornou uma esposa devotada e leal enquanto ele a traía. "O marido passou a maltratá-la, verbalmente e também fisicamente. Há testemunhos que revelam como pelo menos uma vez ele bateu nela", informa Caso.

O casal dormia em quartos separados, embora ele visitasse Josefina algumas noites quando tinha insônia e "precisava suar", segundo as memórias de Madame de Rémusat.

Quando Napoleão se tornou imperador dos franceses em dezembro de 1805, ele coroou Josefina como imperatriz na presença do Papa.

Ela aproveitou a presença do pontífice para também se casar pela Igreja, sugestão que foi prontamente acatada pelo esposo.

Em 2 de dezembro de 1804, Napoleão coroou a Imperatriz Josefina na Catedral de Notre Dame

Em 2 de dezembro de 1804, Napoleão coroou a Imperatriz Josefina na Catedral de Notre Dame
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

"Napoleão continuou com Josefina porque o casamento o interessava do ponto de vista social, especialmente depois que ele foi coroado imperador", interpreta Caso.

Além disso, Josefina sabia muito bem o que significava ser imperatriz

A romancista Sandra Gulland, autora de Josefina Bonaparte: Sonhos e Confidências da Jovem Josefina (sem versão em português) escreve: "Embora bastante inteligente, ela não tinha realmente um grande intelecto. Porém, de alguma forma sabia como ser uma imperatriz".

O divórcio

Napoleão queria um herdeiro e Josefina nunca lhe deu um.

Então, no dia 14 de dezembro de 1809, ele se divorciou dela. A essa altura, o relacionamento entre os dois já estava completamente desgastado.

Mesmo assim, ele deixou Josefina com o título de imperatriz e com boas condições de vida.

"Em parte, isso deveu ao respeito por sua própria dignidade imperial e porque naquele momento final ele sentiu um certo carinho por ela", opina Caso.

Em 1810, após o desquite, Napoleão casou-se com Maria Luisa da Áustria, com quem teve um filho: Napoleão Francisco Carlos José, que seria intitulado rei de Roma.

"A lenda de que Napoleão e Josefina tiveram um amor apaixonado do começo ao fim não é verdade. Ele era um psicopata e ela gastava fortunas em roupas, joias e na decoração de seus palácios", garante Caso

O então imperador Napoleão divorciou-se de Josefina em 1810

O então imperador Napoleão divorciou-se de Josefina em 1810
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

"Ela também foi uma mulher sem nenhuma ética, que construiu seu destino na cama dos homens. Mas posso entendê-la, já que naquela época a mulher não tinha possibilidades de desenvolvimento pessoal ou profissional de forma independente", interpreta o historiador.

"Josefina foi uma mulher que usou o seu físico, a sua elegância e o seu charme para sobreviver primeiro, e depois manter uma posição social", completa.

Mas por que então se considera seu relacionamento com Napoleão como um dos grandes casos de amor da história?

"Porque o destino de Napoleão parece estar ligado de uma forma estranha ao seu casamento com Josefina", responde Caso.

"Antes do casamento, ele não passava de um general sem destino. É justamente após o matrimônio que começam as suas grandes vitórias. Assim que o imperador se divorcia para se casar com Maria Luisa, suas derrotas voltam a aparecer", continua.

"É como se Josefina, apesar de toda frivolidade e deslealdade, fosse uma espécie de amuleto para ele. E, claro, todo mundo gosta de lendas de amor, mesmo que elas sejam falsas", completa.

Fonte:Terra e BBC News Brasil



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