quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Registros de tuberculose na região de Presidente Prudente superam médias estadual e nacional da doença

Penitenciária 'Silvio Yoshihiko Hinohara', em Presidente Bernades (Foto: Arquivo/G1)
Penitenciária 'Silvio Yoshihiko Hinohara', em Presidente Bernades (Foto: Arquivo/G1)

Um levantamento realizado com base nos dados do Sistema Nacional de Agravos e Notificações (Sinan) revela que os 32 municípios que integram o Pontal do Paranapanema, na região de Presidente Prudente, possuem índice superior às médias estadual e nacional no registro de casos de tuberculose. Os 32 municípios contam com uma população de cerca de 600 mil habitantes. Em oito anos, de 2007 a 2015, foi detectado, de 2.221 notificações, o índice médio de 43 casos para cada 100 mil habitantes, superando o Estado de São Paulo e o Brasil, respectivamente, com 38 e 32 registros em relação ao mesmo contingente populacional.

Outros dados significativos obtidos com as produções de mapas temáticos são de que a doença apresenta maior incidência nos homens (82,72%) do que nas mulheres (17,28%). A maioria deles é analfabeta (85%) e está na faixa etária compreendida entre 20 e 39 anos (60%), seguida dos que têm entre 40 e 59 anos (26%). Dos 20 aos 59, existe um índice de 86%. Há uma relação direta com os pacientes que estão presos no sistema carcerário.
O fato de a enfermidade acometer mais os homens do que as mulheres está relacionado ao tabagismo e ao consumo de bebidas alcoólicas, à menor procura aos serviços de saúde e à baixa adesão ao tratamento.

Penitenciárias

Os presos em penitenciárias são mais susceptíveis em razão do ambiente no qual estão inseridos, ao estado imunológico e ao maior tempo de exposição junto aos infectados pela bactéria que afeta principalmente os pulmões e propaga-se com facilidade, por tosse ou espirro.
Dos 14 municípios que apresentaram números crescentes da doença, no período de oito anos da avaliação, sete possuem presídios. A superlotação nos presídios contribui decisivamente com os altos índices e o maior número de casos foram verificados em Martinópolis, Caiuá, Presidente Bernardes e Marabá Paulista, município onde a doença chegou ao patamar superior a 380 casos por 100 mil habitantes. O índice mais baixo foi de 2,30 por 100 mil, em Indiana.

Ainda como dados preocupantes estão os 83% do índice de cura e os mais de 5% do abandono de tratamento. A Organização Mundial de Saúde (OMS) preconiza que o índice de cura deve ser superior a 85% e o de abandono inferior a 5%.
A biomédica autora do estudo junto à comunidade científica da Universidade do Oeste Paulista (Unoeste), Anne Beatriz Bortoluci, afirma que os índices gerais revelam a existência de um problema endêmico no Pontal do Paranapanema.
O estudo, cujos resultados se tornaram públicos nesta semana por conta da defesa de dissertação no Programa de Mestrado em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional, oferece um diagnóstico indicador de qualidade de saúde capaz de orientar não somente as políticas, mas também ações de saúde no Estado e no país.
O biomédico pesquisador e orientador da pesquisa de Anne, Marcus Vinicius Pimenta Rodrigues, anunciou que o diagnóstico do Pontal tem os dados cruzados com os de Maputo, a capital de Moçambique.
O biólogo e técnico do Ministério da Saúde moçambicano, António Chigogoro Titosse, está inserido no mesmo mestrado desde o começo do ano passado e no fim de 2018 concluirá a pesquisa que irá contrastar as duas realidades, na busca de subsídios para a doença presente em todos os continentes, classificada como negligenciada e que apresenta mais de 10,4 milhões de casos, com 1,5 milhão de mortes anualmente.
A biomédica Camila Henriques Coelho, pesquisadora vinculada ao National Institute of Allergy and Infectious Disease (HIN) na França, avaliou o estudo brasileiro como relevante.

Políticas públicas

Para ela, o mapeamento realizado sobre a tuberculose no Pontal do Paranapanema, conhecido por ser um dos principais polos da reforma agrária no país, oferece importantes subsídios para políticas públicas de combate à doença.
A autora da pesquisa regional entende ser necessária, para alcançar as metas da OMS, melhor integração entre os prestadores de serviços clínicos e laboratoriais, gestores e profissionais dos três níveis de governo: municipal, estadual e federal.
Um exemplo de problema de atuação sem estabelecer a conexão necessária, para que as informações cheguem completas ao Sisan, está na falta de informação se a doença foi diagnosticada por teste rápido ou não.
O agente municipal ou estadual de saúde, muitas vezes sobrecarregado de serviço devido ao reduzido número de servidores, ao notificar um caso não preenche todos os campos de informação, dando preferência para atender pacientes em relação ao trabalho burocrático.
Pimenta disse ainda que a tuberculose tem um viés social muito significante: o de que pessoas com menor escolaridade são as mais vulneráveis, por falta de acesso ou mesmo compreensão de informações. A geógrafa pesquisadora Dra. Alba Regina Azevedo Arana, que orienta o estudo de Titosse, disse que o estudo sobre a tuberculose está inserido no Programa de Pesquisa Interdisciplinar (Prointer) do mestrado que coordena, de tal forma que profissionais com diferentes formações trabalham com esse e outros problemas relacionados ao desenvolvimento do Pontal do Paranapanema.
Orientada por Pimenta e avaliada por Camila e Alba, na banca de defesa pública de sua dissertação, na terça-feira (27), Anne foi aprovada para receber o título de mestre em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional. Em Paris, Camila fez a avaliação por videoconferência, procedimento de uso das novas tecnologias que tem possibilitado à Unoeste desenvolver algumas ações de processo de internacionalização.

Fonte:G1

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